quarta-feira, julho 19, 2006

Superman


Enfim entendi aquele homem. Sem suspense, aquele homem é meu pai. De poucas palavras, pouquíssimas, nunca fez marketing pessoal, não foi referência de nada que pudesse ser evidente, óbvio, ao contrário de outros, como ele, pais, bons jogadores de pelada, de sinuca, arrojados ao volante de um carro.

Os carros de meu pai apodreceram na garagem. Ele preferia andar de ônibus. Enfim entendi aquele sujeito pouco arrojado ao volante, que não jogava sinuca, que levou uma bolada no saco e desistiu para sempre das peladas, referência de nada que pudesse ser evidente e que nunca fez marketing pessoal. Homem de pouquíssimas palavras, cujos carros apodreciam na garagem porque preferia andar de ônibus.

Nunca se fez de herói. Pelo contrário, fez questão de não sê-lo. Enquanto não conseguia entender aquele homem, como sonhei com um herói, de voz determinada, de gestos determinados, destemido, de posições determinadas, que desse gargalhadas em público, que levasse a família para almoçar na churrascaria, que dirigisse meu destino. Como todos os outros pais que eu conhecia.

Entendi que aquele homem, esse que não era como todos os outros pais que eu conhecia, que não levava a família para a churrascaria, que não ria em público, que nunca fez questão de ter posições determinadas, que não escondia o medo, que não dava ordens, que hesitava, que sempre fez questão de não parecer herói, foi e tem sido um homem, um grande homem.

Grande no sentido em que poucas vezes encontrei em algum homem. Grande em seus pequenos gestos, em seus sorrisos tímidos, em suas poucas, pouquíssimas palavras. Grande o suficiente para deixar espaço para que eu nunca precisasse ser outra pessoa além de mim mesmo, outro homem além de mim mesmo. Grande para deixar eu ver o que é grandeza, deixar eu desprezá-la, desejá-la e assumi-la. Grande para permitir que eu quisesse um dia, ser como ele, grande. E no outro, ser eu mesmo.

Aquele homem. Entendi. Enfim. O que é ser pequeno e o que é ser grande. Como meu pai.