sábado, dezembro 25, 2010

Meu poema de Natal


Luiz Guilherme

Uma vaca tem quatro patas,
baba e come capim,
Dizem que lá estavam também
uma ovelha e um burro,
Que, assim como as vacas, têm quatro patas,
babam e comem capim,
E, o que era muito importante naquela noite,
Um bafo quente.
A mesinha onde ficava o capim,
Também estava lá.

Não precisava de árvore iluminada,
Mas podia ter, nem de iguarias,
Mas podia ter. Não precisava de
Um monte de coisas, mas,
Desde que não atrapalhassem,
Podia ter. Precisava, sim,
De uma vaca, uma ovelha, um burro,
Para não sentir frio,
E de capim numa mesinha para dormir.

E um menino nasceu, cresceu e viveu,
não muito, mas muito feliz,
(Embora quase sempre só se lembrem
Dos poucos momentos tristes da vida dele),
Viveu livre, ao ar livre,
E ensinou coisas lindas
Pra quem tivesse
Ao menos uma vaca, uma ovelha,
Um burro e uma manjedoura,
No coração, que é o único lugar
Onde o Natal existe.

quarta-feira, julho 19, 2006

Superman


Enfim entendi aquele homem. Sem suspense, aquele homem é meu pai. De poucas palavras, pouquíssimas, nunca fez marketing pessoal, não foi referência de nada que pudesse ser evidente, óbvio, ao contrário de outros, como ele, pais, bons jogadores de pelada, de sinuca, arrojados ao volante de um carro.

Os carros de meu pai apodreceram na garagem. Ele preferia andar de ônibus. Enfim entendi aquele sujeito pouco arrojado ao volante, que não jogava sinuca, que levou uma bolada no saco e desistiu para sempre das peladas, referência de nada que pudesse ser evidente e que nunca fez marketing pessoal. Homem de pouquíssimas palavras, cujos carros apodreciam na garagem porque preferia andar de ônibus.

Nunca se fez de herói. Pelo contrário, fez questão de não sê-lo. Enquanto não conseguia entender aquele homem, como sonhei com um herói, de voz determinada, de gestos determinados, destemido, de posições determinadas, que desse gargalhadas em público, que levasse a família para almoçar na churrascaria, que dirigisse meu destino. Como todos os outros pais que eu conhecia.

Entendi que aquele homem, esse que não era como todos os outros pais que eu conhecia, que não levava a família para a churrascaria, que não ria em público, que nunca fez questão de ter posições determinadas, que não escondia o medo, que não dava ordens, que hesitava, que sempre fez questão de não parecer herói, foi e tem sido um homem, um grande homem.

Grande no sentido em que poucas vezes encontrei em algum homem. Grande em seus pequenos gestos, em seus sorrisos tímidos, em suas poucas, pouquíssimas palavras. Grande o suficiente para deixar espaço para que eu nunca precisasse ser outra pessoa além de mim mesmo, outro homem além de mim mesmo. Grande para deixar eu ver o que é grandeza, deixar eu desprezá-la, desejá-la e assumi-la. Grande para permitir que eu quisesse um dia, ser como ele, grande. E no outro, ser eu mesmo.

Aquele homem. Entendi. Enfim. O que é ser pequeno e o que é ser grande. Como meu pai.

domingo, junho 25, 2006

Bussunda e o Dalai Lama


Grandes ensinamentos duram muito no tempo e pouco na alma. "Palavras de sabedoria", acredito, são as que nos dizem que as palavras, todas elas, nos atravessam e nos escapam.

Bussunda morreu aos 43 anos, pouco antes de seu aniversário, em meio a uma Copa do Mundo. Bussunda fazia rir, mas nunca me pareceu ter a inteligência, o refinamento e a beleza de Chaplin. Nem a ingenuidade de Chapolin, nem a simplicidade do Mazzaropi.

Tenho passado os olhos por um desses livrinhos que se abrem as páginas para o ensinamento do dia. Presente carinhoso dado por minha ex-sogra. Palavras de sabedoria. Penso em Bussunda e em sua morte e tento não fazer-me solidário. Enquanto puder. Por isso, leio o livrinho tentando aceitar a morte. E afastá-la, se é que isso é possível!

sábado, junho 17, 2006

BLOG DO LUIX1 (recuperada do antigo BLOG)

Nunca pretendi ter um BLOG, achava que tinha mais o que fazer. Mas, eis-me aqui, uma espécie de peixe apanhado nas redes de uma boa propaganda. "É facil", "clique aqui", blá, blá, bá... Resultado? Você, lendo o que eu nem pensava em escrever.

É assim mesmo, quando pensamos que temos escolha, vem alguém e escolhe na nossa frente. E nos carrega, e nos diz ou não diz o que fazer, e nos cobra alguma coisa, e quando nos damos conta, estamos escrevendo um BLOG. Ou amando.

O pequeno Príncipe


Por que encaixotaram o sonho e o despacharam para um planeta tão distante? E logo para um planeta onde não tem lua! Será que eles sabiam que os sonhos só aparecem com a luz da lua? Se sabiam, tentaram esconder o sonho. Talvez eles não saibam que o sonho pode criar sua própria luz criando sua propria lua.

(Para o meu Pequeno Príncipe)

quinta-feira, junho 15, 2006

Onde está Wally?


Hoje morri umas duas ou três vezes. Começo assim a entender o que os místicos chamam de reencarnação. Engraçado. Cada vez que nasci eu era um bebê de novo, que só sabia fazer umas quatro coisas, se é que há algum saber em fazer xixi, cocô, chorar e dormir. Ah, e mamar. Cada vez que nasci, nasci o mesmo, mas não era chato ser o mesmo. Engraçado. Todas as vidas terminavam no mesmo momento, agora, e agora começavam. Uma depois da outra, minutos de diferença entre os agoras.

Não. Não ando consumindo nada que justifique o que muito bem pode ser uma loucura ainda branda, salvo umas duas cevejas long neck. Mas tenho visto a vida passar. E tenho me sentido muito amado por cada pessoa que amo. Quando estou triste, é a vida que encontra morte. Hoje descobri, (eu e minhas descobertas!), que é a morte que encontra a vida.

(Este post é uma homenagem aos três anos de sumiço do Wally Salomão)